Home / Artesanato / História / A massificação cultural

A massificação cultural

A Ofensiva Cultural das Classes Trabalhadoras, desencadeada pelo Instituto Nacional de Cultura, em Abril de 1977, executava uma das bases da política de então, que passava por levar as “grandes massas” a participar em todos os aspectos da actividade cultural.

O objectivo principal desta ofensiva era fazer o inventário e o registo de todas as manifestações literárias e artísticas, a partir da qual se desenvolveria a nova “expressão revolucionária”. Esta planificou-se em três fases, sendo a primeira de propaganda junto das populações para a sua participação; a segunda, a recolha, análise e selecção dos dados para, na terceira e última fase, divulgar esses trabalhos através de edições em livro, disco e também, pequenos documentários cinematográficos.

Esta campanha foi iniciada com uma forte campanha a nível nacional. Brigadas foram enviadas a diversos pontos do País, com a função de estabelecer delegações do Instituto naqueles locais (Cabo Delgado, Niassa, Tete e Zambézia). Um outro grupo partiu para a ex-República Democrática Alemã, onde efectuou diversas palestras sobre a actividade artística em Moçambique.

A partir de Maio, ao nível de todo o País, pensava-se iniciar uma série de espectáculos, denominados “Festa do Trabalhador”, em que se poderiam estudar, avaliar e efectuar as diferentes experiências artístico-culturais. Estes espectáculos seriam realizados em pavilhões desportivos e casas de espectáculos, ou outras instalações que na altura se encontrassem desocupadas. A imprensa da época registava a movimentação que se realizava por todo o País: seminários, reuniões e concursos, com vista a atingir os objectivos pretendidos. A campanha tinha ainda outros objectivos, todos eles bastante ambiciosos, que passavam pela exibição de filmes de curta duração, focando as várias modalidades culturais existentes no País, a serem produzidos pelo Instituto Nacional do Cinema, e pela criação dum Serviço Nacional de Rádio Educativo, que iniciaria as suas actividades logo após a recolha do material produzido pelas diferentes brigadas.

Terminada a primeira fase, realizou-se o 1º Seminário para os Dinamizadores da Ofensiva, iniciada a 30 de Maio, em que participaram elementos das diferentes organizações “de massas”, das forças militares, estudantes, professores e artistas.

Mas gradualmente o ímpeto inicial vai desaparecendo, e as actividades culturais, realizadas no âmbito da campanha, voltam a ocupar a actividade de rotina habitual. A criação de grupos culturais polivalentes em inúmeros locais de residência, de trabalho e da escola, foi um dos aspectos mais positivos da campanha.

As Casas de Cultura são referidas pela primeira vez em 1977, no âmbito desta campanha. Estas seriam locais com condições para a promoção de actividades culturais, permitindo também uma permanente troca de experiências entre os artistas e o povo. O estabelecimento de uma “democratização cultural” passava pela sua expansão a nível nacional. Com um carácter polivalente, elas seriam os centros básicos da vida cultural ao nível do País, desde as cidades às aldeias comunais, devendo a sua construção adaptar-se às condições e possibilidades locais. Nas localidades mais importantes elas viriam depois a instalar-se nas sedes dos antigos clubes desportivos ou associações culturais.
Mas a criação do novo modelo confrontava-se com “resistências”, provocadas ainda pelas antigas associações culturais.

A Casa de Cultura de Maputo, inaugurada apenas em 1978, servirá, durante muitos anos, de modelo para outras iniciativas do género. Iniciou a sua actividade com um amplo leque de cursos - artes plásticas (pintura, desenho, apreciação de artes plásticas), arte popular e cerâmica (artesanato e trabalho em gesso, sisal, confecções e bonecos), teatro, dança, música coral, corte, costura e bordados. Paralelamente a estes cursos organizou, nos primeiros tempos, uma intensa actividade cultural de fim de semana, em que se misturavam dança, poesia, teatro, música e cinema, permitindo-se aos assistentes dialogar com os artistas presentes, para melhor conhecimento e/ou interpretação das obras.

Duas das questões que mais afectavam o desenvolvimento das suas actividades prendiam-se com as verbas disponíveis e com o seu reconhecimento legal. Do ponto de vista financeiro, as Casas de Cultura viviam apenas das receitas obtidas dos cursos realizados e dos fundos de funcionamento.

Na impossibilidade de estender rapidamente as Casas de Cultura a todo o País, foram concebidos, desde 1979, os Centros de Intercâmbio Cultural, por iniciativa dos serviços provinciais de cultura. Estes centros, vistos então como um “instrumento fundamental e decisivo para o processo de dinamização cultural do país”, eram a “etapa embrionária das casas de cultura”, seriam instalados numa primeira fase apenas na província de Maputo, em locais já determinados, e tinham como objectivo desenvolver o intercâmbio entre os diversos grupos culturais das escolas, empresas e bairros. Seriam dotados de um salão polivalente, uma oficina de artesanato, pequena biblioteca, sala de música, sala de exposições, galeria de serviço e armazém, sala de dança e uma área externa para actividades de maior dimensão. Paralelamente seriam criados centros museológicos que descreveriam o passado e o presente da vida do País.

Inicialmente, tal como já tinha ocorrido com as casas, o processo de implementação parece ter sido muito rápido, mas este optimismo inicial rapidamente esmorece e, tal como elas, nunca tiveram uma implementação nacional.

O Historiador: Dr. António Sopa


Em colaboração com

Doadores